Natal.
Eu nunca fui fã de comemorar o Natal. Desde pequena, meu sentimento dias antes e, principalmente no dia, é de melancolia, uma certa tristeza misturada com introspecção e vontade de ficar em casa, quieta. Não vejo motivos para comemorar. Não sei por que tantos fogos insistem em estourar enquanto escrevo estas linhas... já é Natal, e o meu, como muitos outros anteriores, se resume ao silêncio que, desta vez, se transcreve em palavras.
Há uma hora, eu estava aqui, nesta mesma cadeira, tentando elucubrar meus pensamentos e fazer deles algum texto decente. Poucos minutos antes da meia-noite tive o ímpeto (?) de fazer duas marmitinhas da comida que minha mãe nos fez hoje, coloquei duas frutas em cada, peguei o carro e saí aí pela rua. Mentalizei que encontrasse duas crianças que estivessem desamparadas por um pai físico... mas não pelo Pai espiritual. Não foi muito difícil encontrar duas pessoas. Não, não eram crianças. Minha mãe, sendo minha companhia no carro, de início foi rabugenta. Uma pena. Viu-me fazendo as marmitinhas e deu os seus pitacos desagradáveis, mas nada como a ação propriamente para fazer valer dentro dela o verdadeiro propósito da ação. A primeira pessoa foi um rapaz, que remexendo no lixo, procurava algo. Supomos que fosse comida. Talvez fosse. Talvez não. Ao parar o carro, percebi que não se tratava de um mendigo propriamente. Tinha uma bolsa. Tratou minha mãe com frases que terminavam com "senhora" - típico dialeto de quem já passou pelo sistema prisional. Talvez fosse bandido, talvez não. Que tipo de crime poderia ele ter cometido? Perguntas que me vieram após a entrega da primeira marmita, claro. Mesmo assim, nos pediu R$2,00 para o trem (?). E que "trem" poderia ser este? Deixo pra você a análise. Já entregue, disse eu que havia saído sem dinheiro. Partimos. Confesso que, em um primeiro momento, não fiquei feliz por ter dado-lhe a comida, quentinha, uma marmita que fiz com muito amor para dois seres completamente estranhos a mim. Pensei: "Deve ter gente melhor!". Porém aqui, agora, minha análise é mais fidedigna ao propósito Maior do Universo, uma visão não- egoísta da coisa. Afinal, quem sou eu para julgá-lo melhor ou pior de um possível outro recebedor da quentinha? Se somos todos iguais perante Deus, então subentendo que esta é uma tarefa que não me cabe. De verdade, espero que este alguém que, por dois minutos, cruzou meu caminho, tenha recebido nosso sentimento da mais pura Harmonia divina. Mas é uma pena ter sentido que este homem não saiba qual o verdadeiro e único sentido do Natal.
A segunda marmitinha foi logo em seguida e esta com certeza será bem aproveitada. Encontramos uma senhora, esta sim, moradora de rua. Ao ser abordada, me pareceu não entender bem o nosso propósito, mesmo a gente não ter falado quase nada a ela. Claro, recebeu a sacola mas, pra meu espanto e sua alegria, foi a latinha de guaraná o grande presente do seu Natal. Foi nítida a mudança no seu rosto ao receber tal líquido. Confesso, ali senti mais satisfação.
Olha como as coisas são, se nós formos analisar este acontecimento friamente, o que eu geralmente tenho feito, posso enxergar, mesmo tendo uma atitude bacana [e isto não foi uma propaganda], um ligeiro egoísmo em querer sentir satisfação pelo ato. Isto prova, mais do que qualquer coisa, ao menos pra mim, que o ser humano, por mais nobre que seja, dificilmente se livra do chaga do egoísmo, mesmo buscando fazer a sua parte neste mundo-cão. Difícil acreditar que muitas outras pessoas tenham ou teriam esta mesma percepção que tive da cena de hoje [se é para ser realista, serei no todo]. Além da satisfação, acho que muitos sentiriam provável sentimento de "fiz minha parte"
Não voltei feliz. Pelo contrário, permaneci com a mesma sensação de tristeza e melancolia. Talvez, até inconscientemente, tenha tido tal ímpeto como forma de aliviar as MINHAS sensações. Mas também [aprendi] não serei auto-terrorista e não me dar o devido merecimento por tal gesto. Esta complexidade humana me intriga, me choca, me multila e me fascina. Pode até te parecer loucura, mas eu gosto de fazer estas análises, sabe, justamente porque são estas que te evitam super alimentar o ego, sinônimo de perigo, aquele que te faz acreditar ser o que você não é!
Enfim, voltei na mesma. Ouvindo fogos no caminho de volta pra casa e me perguntando: "Mas o que é que vocês tanto comemoram?". Não acho eu que o aniversariante do dia esteja feliz com o presente que tem recebido daqueles que um dia deixou-se crucificar por nós.!
"Porque tu és pó e ao pó retornarás" (Gênesis 3:19)




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